BUCK ANGEL (EUA)

Um homem otimista

Mesmo antes do início dos trabalhos da 1ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil, logo na manhã do primeiro dia de debates, a reportagem já tratou de conseguir uma fala do “homem com vagina”, como ele mesmo se define, mais famoso do mundo. Buck Angel – homem transexual, produtor de filmes adultos, performer e ícone LGBTQIA – é militante, palestrante, escritor e tem a receptividade como seu maior cartão de visitas. Leia trechos da entrevista:

Qual a sua primeira impressão do Brasil?

Incrível! Porque eu cheguei no aeroporto e logo vi um café!!!! [risos]. Sou viciado em café. Mas gosto de café de verdade e o brasileiro é maravilhoso. Eu amei. Então diria que essa foi minha primeira impressão [risos]. Minha segunda foi ver pessoas realmente incríveis, lindas e amigáveis. Muito amigáveis, fáceis de você abordar e conversar. Eu viajo muito e posso dizer que não é assim em todos os países.

Mesmo? Tem-se questionado muito por aqui se somos de fato amigáveis.

Por quê?

Há tanta coisa acontecendo…

Mas no mundo inteiro… Não sei, eu senti esse clima amigável aqui. Talvez porque eu seja uma pessoa amigável. Eu acredito em energia. Então, se eu chegar para você e perguntar onde é o banheiro de uma forma brusca, dura, é totalmente diferente de chegar e perguntar a mesma coisa só que com um sorriso no rosto, dando um “oi” antes. De qualquer forma, todos têm sido tremendamente doces e gentis. E outra coisa: a comida… Eu amo peixe, por exemplo, e o peixe aqui é incrível. Enfim, eu amo comida, café e pessoas, e vocês têm tudo isso [risos].

Sobre a conferência, qual você diria que é a importância de realizá-la num país como o Brasil – que, entre outros problemas ligados a essa temática, tem níveis assustadores de morte de pessoas transexuais?

É justamente por isso! Há cinco ou seis meses eu mesmo não sabia do número de mortes de pessoas LGBTQIA aqui. E fiquei chocado! Boa parte do mundo não entende isso. Então, é claro que temos que fazer essa conferência no Brasil. É uma questão de direitos humanos, e não apenas de direitos dos brasileiros, as pessoas viverem suas vidas do modo como elas quiserem. Desde que você não mate ninguém, é seu direito ser gay, ser hétero, ser negro, ser branco, ser quem você é e quem você quiser ser. Então, o fato de haver pessoas por aí que estão nos assassinando é muito grave. Como ativista, eu tenho a voz para vir a lugares como o Brasil, onde minha “voz branca” é tão poderosa. Eu sou privilegiado por ser um homem branco hoje – eu era uma mulher gay branca.

E você pensa sobre esse viés racial nas suas ações?

Todo o tempo. Porque eu sei que ter me tornado um homem branco me deu poder. Muitos dos meus amigos são negros, minha vida inteira eu convivi com pessoas negras, por isso acho tão importante ser capaz de usar minha voz privilegiada numa arena como essa. É muito interessante observar como as pessoas me ouvem mais, por seu ser um homem trans branco, do que ouviriam um homem trans negro ou um gay negro. É muito triste, mas é a realidade. E a gente precisa tirar vantagem da realidade que temos. Eu me sinto muito honrado, e com sorte, por ser essa pessoa que pode promover mudanças no mundo. Você sabe o quão poderoso é isso? Sempre me emociono quando digo isso, porque eu não era assim. Eu era uma pessoa que me cortava, que já quis me matar, tinha uma vida horrível. E agora cá estou eu, no Brasil, entre essas pessoas lindas e amáveis.

E interessadas em ouvir o que você tem a dizer.

Exato. Isso é muita coisa. Você e eu juntos podermos provocar mudanças.

E o que você espera que vai acontecer por aqui ao longo desses seis dias?

Estou com muita expectativa. Mas de um jeito bom e realista. Muitas pessoas passarão por aqui e muita coisa vai mudar. Há muitas diferenças entre as tantas vozes da comunidade – aqui e no mundo todo –, mas isso é assim com todas as comunidades. Mas estamos aqui por único motivo: mudança. Todos estão cansados do modo como as coisas estão. Aqui, no Brasil, vocês estão cansados de sentir medo de andar na rua – gay, trans etc. – e serem mortos ou mesmo xingados de bicha, sapatão, o que seja. Chega! Estamos em 2015. Essa merda não pode continuar acontecendo.

Você é um otimista?

Dos grandes [risos]. 100%. Sou o cara que sempre olha as coisas de uma maneira positiva, porque eu acredito que se você expressa positividade será isso que você vai receber em troca. O copo está meio cheio. E funciona para mim. Ser uma pessoa positiva faz parte de uma atitude de mudança.






CLAIRE RUMORE (EUA)

O que você pensa sobre realizar uma conferência como essa num país com tanta herança de racismo, sexismo, homofobia e transfobia?

Acho que a primeira coisa que temos que pensar é que essa herança é universal, não é uma particularidade brasileira. Como estrangeira, vinda dos Estados Unidos, quando eu penso no Brasil, penso em positividade em relação ao sexo, liberalismo na sexualidade, nas danças sensuais, no samba e no quanto as pessoas aqui são livres com seus corpos – comparando com o lugar de onde eu venho. Somos mais fechados. Inclusive é muito interessante ver como você, sendo daqui, começou com uma pergunta que mostra que talvez você tenha uma perspectiva totalmente diferente da minha, uma pessoa que vem de fora. Daí a importância de realizar essa conferência aqui, pela chance de falar sobre essa dualidade, essa polaridade, das experiências em sexualidade. Ou seja, por um lado há preconceito e por outro, o liberalismo. Acho uma ótima oportunidade de avaliar todas as perspectivas. O mesmo, claro, poderia ser dito se realizássemos um evento como esse nos Estados Unidos. Também temos fobias e preconceitos que merecem toda a atenção.

É a sua primeira vez no Brasil?

Quarta vez.

E hoje, aqui pela quarta vez, você diria que somos mesmo tão liberais quanto você pensava?

Eu venho aprendendo mais sobre os brasileiros. Muitos dos organizadores da conferência são amigos meus e conversamos sempre sobre as mudanças políticas que têm ocorrido por aqui, do conservadorismo religioso que tem ganhado espaço no poder e nos conflitos que tudo isso causa, entre outros aspectos, nas questões LGBTQIA. Isso tem me dado outra perspectiva sobre a realidade brasileira e me feito perceber que, bem, o Brasil não é assim tão diferente de outros lugares. Mas mesmo assim, eu acredito que existe aqui uma abertura para a sexualidade que não se verifica nos Estados Unidos. E falo honestamente.

O que você espera dos próximos dias?

Eu acredito que vai acontecer aqui o que precisa acontecer. Então diria que estou confiante, mesmo com todas as diferenças que se reunirão aqui. Seguramente irão acontecer coisas inesperadas, algumas conversas podem ficar tensas, alguns convidados poderão acabar não vindo ou mesmo por conta de todo o impacto que as discussões causarão em quem assistir – afinal, não é sempre que se fala dos temas que serão tratados aqui. Tudo pode acontecer e eu espero que tudo aconteça [risos].

Para finalizar, diga algo sobre o Brasil que você achava e descobriu que é verdade.

Nossa… Deixe-me pensar…[risos].

Talvez nossas “danças sensuais”… [risos]

Sim! [risos]. Sua música e sua dança são realmente cheias de poesia. Além disso, acho que o Brasil tem uma herança linda de mudanças de comportamento e é um lugar muito espiritual. É isso que eu vejo aqui, algo que acho tremendamente inspirador e sempre comprovo em cada brasileiro que conheço, em todas as vezes que volto aqui. Vocês têm uma energia linda – e isso, sim, é único.






JOÃO W. NERY (BR)

O que você acha que a realização dessa conferência representa dentro da trajetória do movimento LGBTQIA no Brasil?

Primeiro ela é internacional. Então tem gente aqui de vários lugares, de outros países, acho que a vinda do Buck Angel é um marco dentro do movimento brasileiro das transexualidades masculinas. Então, sem dúvida nenhuma, é muito importante esse encontro porque ajuda a aumentar a visibilidade das sexualidades plurais, das discussões de gênero, do âmbito queer. Além da divulgação que isso tem na imprensa. É uma pena que esteja acontecendo só em são Paulo, acho que ele teria que ser itinerante, ir para outros estados também. SSEX BBOX está de parabéns, porque é uma empreitada muito difícil, sem dinheiro, com muitos voluntários ajudando, trabalhando. Eu só tenho elogios.

O que você acha do tom midiático do Buck Angel?

Eu nunca vi nenhuma performance dele, mas conversei com ele e o discurso é ótimo. Mas de qualquer forma eu acho a postura dele muito interessante, quando ele diz que é um homem de vagina. Se ele quer mostrar a vagina dele que mostre, eu também tenho, mas não mostro a minha. Ele também ganha dinheiro com isso, trabalha com a pornografia, enfim. Eu sou um cara mais acadêmico, mas acho válido, porque é uma forma também política de atuar.

O Leo Moreira Sá disse enxergar uma grande dificuldade de trazer os homens trans para o movimento político. Você vê isso também?

Sim. Eu acho que o movimento trans masculino é muito inicial ainda, os garotos são muito jovens, estão muito preocupados em contar para os pais, em saber qual o hormônio que vão usar, em saber que psicólogo conseguir. Então há uma visão ainda muito individualista, egocêntrica mesmo, muito umbilical, olhando para o próprio umbigo. E a grande maioria ainda não tem a dimensão do que representa esse movimento das transmasculinidades para conseguir direitos que eles nem sabem que não têm. Eles nem sabem que são patologizados, que são considerados doentes mentais. Tudo bem, eles sofrem transfobia em casa, na escola, no trabalho etc., mas ou choram ou se deprimem…

Eles não teriam ainda se dado conta da especificidade desse preconceito…

Exatamente. Eles não têm. Falta uma conscientização maior. Quando você chama esses garotos para uma reunião, tem que botar uma cerveja no meio senão eles não vão. E não é para ser uma festa, é uma reunião política. Mas cada trans homem que eu adiciono no meu Facebook eu coloco a ficha do Ibrat [Instituto Brasileiro de Transmasculinidade] para eles se cadastrarem, e indico também os outros trans homens do mesmo estado que ele, para ele entrar em contato. Essa é uma forma de fortalecer o movimento, colocar uns falando com os outros, se cadastrando através do Ibrat. Acho que é o primeiro passo para uma conscientização política maior, de empoderamento.

Como você vê a relação entre a transmasculinidade e o machismo?

É muito comum no período de transição você encontrar um estereótipo machista num trans homem. Isso porque nada no corpo dele o favorece ser visto como uma pessoa do gênero masculino. É a voz fina, o quadril largo, a presença dos seios, enfim, tudo é feminino. O que sobra para a afirmação dessa identidade é a roupa, um relógio mais bruto, é talvez segurar o saco que nem existe, é talvez baixar o queixo para falar mais grosso, ou assimilar estereótipos machistas. Isso tudo para poder fortalecer sua autoestima e a sua figura masculina. Mas eu observo que na medida em que eles começam a se hormonizar, começam a ficar mais seguros da sua figura masculina, esses estereótipos começam a se esvaziar. Não há mais necessidade deles. Porque, na verdade, todos nós, obrigatoriamente, tivemos que viver num mundo feminino. Nós sabemos o que é um assédio sexual, sabemos o que é um machismo, nós vivenciamos isso de certa maneira mesmo não nos sentindo mulheres. Então, não tem como um homem trans reproduzir o machismo como um homem cisgênero. Não estou dizendo que seja impossível nem que não exista. Existe de tudo. Mas, de uma maneira geral, o machismo é altamente combatido dentro do movimento, inclusive há muitos homens trans que estão hoje no transfeminismo. Um dos princípios do Ibrat é fortalecer o orgulho de ser trans e combater toda forma de preconceito, toda forma de patriarcado, dessa coisa terrível que é machismo.

E sobre a relação dos trans homens com gays e lésbicas cisgêneros?

Aí varia muito. Falo pelos que vieram comentar comigo. Da parte das lésbicas existe, às vezes, uma certa agressividade com relação aos trans homens, negando o fato de eles serem homens. Porque elas não são – sobretudo, as que se dizem sapatão. Não sei se elas se sentem ameaçadas… Não quero julgar. Mas há uma certa reclamação de que as lésbicas acusam os homens trans de serem lésbicas também, só que mais masculinas. Da parte dos gays também existe um pouco desse preconceito. Agora, por outro lado, há muitos trans homens que namoram gays – como namoram outros trans homens também. São trans gays. Mas, de qualquer forma, o movimento é gay. O movimento LGBT é predominantemente gay. Eles têm o poder.

São os que chegam aos cargos de gestão quando esses surgem, por exemplo.

Porque o fato de ser homossexual não te impede de trabalhar. Na verdade, a letra T tinha que ser a parte do LGB. Porque não é uma questão de orientação sexual, é uma questão de identidade de gênero. Então, os transexuais e os intersexuais acham que tinham que configurar uma questão a parte. Porque são outras necessidades. Os gays precisam de leis, claro, para se combater a homofobia – não tem lei nenhuma. Como não tem para os trans, nesse ponto nós estamos juntos. Mas muitas outras demandas são diferentes. Tudo é gay. A Parada do Orgulho LGBT é gay. As lésbicas são gays. Fica difícil você ter visibilidade dentro desse sufoco todo. Mas acho que já houve uma melhora. Representantes importantes dos movimentos gays já estão fazendo uma autocrítica sobre essa questão, já estão com um olhar um pouco diferenciado para o movimento T.






LEO BARBOSA (BR), coordenador do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade (Ibrat) ABC

Tivemos a mesa sobre o binarismo e o não binarismo e você fez um comentário sobre, por outro lado, ser legítima a necessidade de sentir-se parte de um grupo – ou de um gênero.

Eu sinto essa necessidade de estar dentro do binarismo. Eu sempre reconheci em um dos polos, que é o masculino. Mas isso não me era permitido, porque a sociedade te constrói a partir do sexo biológico. Não estou deslegitimando a real vontade de quebrar os gêneros, a fim de abarcar e contemplar todo mundo. Mas acho que não devemos esquecer que o binarismo significa algo para algumas pessoas. Eu sou uma pessoa binária, me sinto contemplado pelo gênero masculino. Mas aceito que as pessoas não se sintam forçadas a escolher nenhum…

Mas você não vê nenhum problema em ser binário, é isso?

Em ser binário, não. Acho que o problema está na construção social do binário. Você movimentar toda uma sociedade, toda uma estrutura – mundialmente – em torno do binarismo é que é um problema grave, porque você passa a ter todas as leis voltadas para esse binarismo. Até os banheiros são binários. O certo não era deixar o banheiro unissex? Mas e aí, como a gente faz a quebra desses conceitos? Como quebrar esse binarismo, se falta uma compreensão melhor dos próprios gêneros?

Qual você acha que é a maior conquista em deixar que os banheiros masculino e feminino sejam usados por quem se sentir à vontade para usar cada um?

O respeito. Se existem banheiros para homens e mulheres, e pessoas que se reconhecem como homens e mulheres, não vejo qual a grande dificuldade e em permitir que cada um use o que lhe convier. Agora, como fica o caso das pessoas não binárias, que têm um visual não binário, e que querem, por exemplo, entrar num banheiro feminino?

E você tem uma resposta para essa pergunta?

Com mais uma pergunta (risos). A pessoa não binária que tenha um visual considerado “feminino” se reconhece como? Aí é que está. Porque os banheiros estão refletindo esse reconhecimento – esse é o problema. Os banheiros se dizem reconhecidos nesse binarismo. O problema não é a pessoa se reconhecer binária ou não binária, mas sim a estrutura mundial que foi criada em cima desse binarismo. Tudo é binário. As leis são binárias, elas não contemplam as pessoas não binárias, e sim homens e mulheres. Olha que loucura! As pessoas não binárias estão à margem disso. É preciso movimentar todo o Poder Judiciário para dar direito a alguém de ir ao banheiro! É um lugar onde você vai para fazer suas necessidades fisiológicas! Mas as pessoas criam uma fantasia de que uma pessoa pode fazer algum mal à outra lá dentro. Eu não consigo conceber que uma mulher trans vá ao banheiro para “catar” outra mulher – trans ou cis – à força. Porque deve ser isso que as pessoas pensam. Estatisticamente, quantas pessoas trans já violentaram pessoas cis dentro de um banheiro? Já o contrário é diferente… Isso precisa parar. Só porque uma pessoa rompe com essa norma ela passa a ser não contemplada pelas leis? Foi só recentemente que se conseguiu que as mulheres trans sejam contempladas pela Lei Maria da Penha [Lei 11 340, que visa aumentar o rigor das punições sobre crimes domésticos cometidos contra mulheres]. Isso, para mim, era algo lógico. Mas as divergências nesse sentido se dão justamente nas delegacias das mulheres, porque a lei fala em gênero, a portaria que seguiu para as delegacias apresenta o termo “sexo”.

Com base na sua experiência, como você o machismo entre os homens trans?

Ele existe. Muito. Há muitos homens trans que, ao se reconhecerem como homens, reproduzem o mesmo tipo de comportamento sexista com relação às mulheres. O que é um absurdo. E não somente porque essas pessoas seguramente sofreram preconceito por serem trans, mas também porque, com certeza, um dia esse homem já sofreu pesadamente os efeitos do patriarcado – porque, na maioria dos casos, esse homem trans começou se reconhecendo como uma mulher lésbica. E inclusive, os homens trans também sofrem preconceito por parte de feministas radicais, que alegam que, já que agora eles são homens, eles não têm direito mais expressar as experiências vividas quando eram mulheres. Sendo que, ao mesmo tempo, nos “inbox” da vida, elas ficam arregimentando esses homens para se unirem ao movimento delas como homens. Na verdade, essas feministas radicais querem que todo mundo que não seja uma mulher cis morra.






MISS IAN LIBRARIAN (EUA)

Questão de atitude

A ativista queer Miss Ian Librarian, que atua pela equidade de gênero e sexualidade e como conselheira psicológica para adultos no Center for Sex and Culture – além de cuidar do acervo bibliográfico do centro – participou de mesas, integrou plateias e mostrou como moda e política podem estar intimamente ligadas – e à serviço das liberdades individuais. Entre uma atividade e outra, ela deu uma rápida entrevista à reportagem da 1ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil. Veja como foi a conversa:

Falando um pouco sobre expressões de comportamento, por que você acha que as pessoas tendem a achar que alguém que se expressa do jeito que quer – quanto à sua aparência, roupas, cabelo etc. – não pode ser confiável? Você mesmo contou que algumas pessoas, no seu trabalho, chegam e perguntam “que porra é isso”, quando, na verdade, “essa porra” é a bibliotecária responsável por todo o acervo bibliográfico do Center for Sex and Culture, e mais: atua também como conselheira para pessoas que tentaram suicídio.

Tenho comigo que minhas roupas dialogam com a moda, mas são também políticas. Então houve também um processo para mim de assumir que eu poderia vestir as roupas que eu queria vestir. Eu diria que é muito libertador para uma pessoa vestir algo que ela jamais usaria – nem que seja entrar numa loja e experimentar algo que normalmente você não compraria. Esse exercício vai fazer você se enxergar de um jeito diferente, talvez com uma dose de honestidade a qual você geralmente se recusa – por exemplo, pelo fato do quanto sua identidade para você está ligada a coisas que você veste, quando, na verdade, as coisas que te fazem quem você é são as que estão dentro de você. Eu quero que as pessoas me vejam desta forma e com estas roupas. No meu cotidiano, principalmente como consultor em saúde mental, isso [a forma como se veste, como se apresenta] tem um impacto do tipo: [as pessoas dizem] você é definitivamente “esquisito”, o que me faz sentir confortável. Mesmo que a “esquisitice” desta pessoa não esteja no modo como ela se veste, ela de alguma forma não se sente “normal”, e eu não aparento ser “normal”. E nós podemos nos relacionar a partir disso.

Carol Queen disse que se impressionou em ver como nós, brasileiros, expressamos nossa afetividade na rua. O que isso te ensinou sobre a expressão de nossas sexualidades?

Não sei dizer, estive aqui por tão pouco tempo…

Mas você não foi a festas, bares?

Ah, sim, com certeza fui… (risos).

E aí?

Ah, percebi que as pessoas são mais “físicas”. O que é interessante, porque eu cresci numa cidade pequena, onde muitos homens demonstram sua afetividade com outros homens, mas nada disso pode ser considerado “gay” – porque, afinal, ninguém ali era gay! Na Bay Area nós temos nossas bolhas pessoais, onde todo mundo fica se perguntando “será eu aperto a mão”, “será que eu abraço”, e nessas sempre rola uma confusão. Então é mais fácil quando você sabe que está num lugar onde todo mundo se cumprimenta com um beijo, por exemplo.






CAROL QUEEN

A rainha do sexo

Esqueça tudo o que você acha que sabe sobre uma pesquisadora e autora de livros na área da sexualidade. PhD em sexualidade humana, autora, editora, socióloga, sexóloga e educadora ativa no movimento feminista sex-positive nos Estados Unidos, Carol Queen é, ao mesmo tempo, uma das mais importantes ativistas na causa pelos direitos da comunidade queer e dos profissionais do sexo – trabalho que desenvolve desde os anos 1970 – e uma figura que resolveu fazer do conhecimento que adquiriu uma alça de acesso a todos, em vez de se enclausurar em uma redoma acadêmica. Ainda durante a década de 1970, foi responsável pela inclusão dos indivíduos bissexuais, como uma identidade positiva, dentro da sigla LGBT. Publicou, entre outros títulos, Real Girl Live Nude: Chronicles of Sex-Positive Culture e The Leather Daddy and the Femme (romance erótico – área da qual é uma renomada autora). Assinou também o tutorial Exhibitionism for the Shy: Show Off, Dress Up and Talk Hot, produziu filmes adultos, participou de eventos, workshops e palestras no mundo todo, além de ser editora de diversas compilações e antologias. A especialista fala com frequência sobre cultura sexo-positiva e diversidade sexual em universidades e conferências internacionais. É cofundadora do Center for Sex and Culture (em São Francisco) e trabalha como sexóloga na Good Vibrations, sex shop fundada por feministas. Durante a 1ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil, foi plateia atenta e convidada das mesas “Conexão São Paulo – Bay Area” e “Para Lá do Binarismo” e palestrante solo no painel “A História e o Futuro da Identidade Queer”. A seguir, trechos das falas da Dra. Carol Queen:

Anos incríveis

“Tenho estado envolvida com o universo da sexualidade nos Estados Unidos desde 1970. Assumi minha bissexualidade em 1973 e desde então já testemunhei muitas mudanças. Mudei para São Francisco em 1985 – ou seja, no ápice da epidemia da aids, que provocou, por sua vez, muitas mudanças. A comunidade que se criou em torno da sexualidade e da diversidade de gêneros data dessa época, quando surgiu um ambiente incrível para o ativismo. Foram anos horríveis e ao mesmo tempo incríveis.”

Ocupação diária

“Eu também trabalho numa sex shop chamada Good Vibrations – minha ocupação diária já há 25 anos. O Center for Sex and Culture é um trabalho de caráter voluntário, movido pelo amor. E o mundo que eu exploro na Good Vibrations está ligado a duas coisas: às pessoas de todas as orientações, todos os estilos de vida no que diz respeito à sexualidade, e ao desejo – desde brinquedos sexuais, livros, vídeos. Tornou-se um lugar onde essas pessoas, tão diferentes umas das outras, encontram um ponto de convergência de seus interesses. Isso é muito importante para mim.”

Sexo não é simples…

“Eu nunca consegui ser uma pessoa que se enquadrasse em uma classificação – sobretudo quando falamos de orientação sexual. Isso sempre foi impossível para mim. Sou bissexual desde 1973 e, nos anos de 1970, se você fosse bissexual não conseguia encontrar uma namorada em lugar nenhum! Era terrível. Então, por dez anos eu me identifiquei como lésbica, embora sempre tivesse entendido que havia algo em mim que estava escondido. Eu não sabia se iria amar um homem novamente algum dia, mas era algo que abrigava um ‘talvez’. E mesmo havendo uma comunidade, esse ambiente que estávamos criando, abrir espaços para aqueles que não eram heterossexuais, não se encaixavam na ordem heteronormativa, não eram cisgêneros, parecia muito difícil. Havia sempre a sensação de não pertencimento. É por isso que meu ímpeto mais importante, como ativista, é contribuir para a discussão sobre sexo e sexualidade, tornar o sexo algo conhecido, compreendido em sua complexidade. O sexo não é simples. Qualquer pessoa que tenta simplificá-lo, invariavelmente, vai excluir muitas pessoas. Além disso, sempre foi crucial para mim ajudar a abrir caminho para a diversidade, lutar pelo respeito que qualquer um de nós merece. Isso para que nenhum de nós se sinta sozinho – especialmente, neste caso, no que diz respeito à orientação sexual ou identidade de gênero. Sabemos que se tratam de duas coisas diferentes uma da outra, mas é claro que elas estão ligadas.”

Mas também não precisa ser difícil

“O sexo é visto como algo que é para ser natural. Uma visão que leva as pessoas a pensarem que você não tem nada a aprender sobre isso, que é algo que simplesmente acontece. Quando a educação sexual é priorizada, ela fornece alguns fatos sobre sexualidade e abre mais espaço para sentir, para perceber, que alguma coisa não está certa. E as pessoas que se deparam com um problema sexual não conseguem se diagnosticar, não conseguem entender o que deu errado. Uns pensam que o problema é consigo, outros pensam que é com o parceiro. Mas seja qual for o problema, o que se detecta é uma certa lacuna de entendimento de ambos os lados e uma inabilidade para se comunicar. A ideia de que somos iguais – todas as mulheres são iguais, os homens são todos iguais – não é verdadeira. A noção de que cada um de nós talvez não esteja certo em nossas noções de sexualidade faz parte de um processo de desprender o que sabíamos para aprender o que, de fato, é verdade para nós. Então, quando digo que sexo não é algo simples, claro que não estou ignorando algumas pessoas, em alguns contextos, para quem o sexo é algo lindamente simples, mas quando pensamos em todo o enorme guarda-chuva da sexualidade, nós não temos informações suficientes para que o sexo seja simples.”

Sobre o Center for Sex and Culture

“Quando criamos o centro, o maior esforço era oferecer um lugar onde todos podiam se sentir bem-vindos. Um espaço onde você encontra livros sobre todos os assuntos ligados à sexualidade. E quando você começa a adentrar o universo desse tipo de literatura, você se depara com muita porcaria. Na época, há 15 anos, esse era um tema não muito bem compreendido, e os interessados em pesquisá-lo não encontravam apoio ou respeito por parte de psicólogos ou do governo. Ainda hoje isso é uma luta. Imagino que possamos traçar paralelos com a realidade brasileira nesse sentido, não acredito que esse seja um problema exclusivamente americano. E é importante perceber como, em muitos lugares – Estados Unidos, Brasil e muitos outros –, as vozes estão se levantando. É a isso que me refiro quando falo da cultura do ‘faça você mesmo’. É a própria comunidade que pode unir a comunidade, buscando as similaridades, agindo com honestidade e encarando as complexidades ligadas a todas essas questões. No meu entendimento, criar cada vez mais espaços para esse movimento é o trabalho mais importante de um ativista – ao menos, eu considero essa a minha função mais importante como militante e como escritora. Quando escrevo, o que eu espero é que meus textos reflitam essa postura. E dentro disso, eu vejo essa conferência, e o trabalho do SSEX BBOX no geral, como exemplos desse ‘faça você mesmo’.”

Queer

“Não sou uma pessoa trans, mas também não posso dizer que me sinto 100% cis. Em meados dos anos de 1990, eu publiquei um livro, juntamente com um jovem homem gay, Lawrence Schimel, chamado PoMoSexuals: Challenging Assumptions About Gender and Sexuality. Nessa obra, nós apresentamos conceitos que fazem frente a ideias essencialistas no que concerne a sexo e sexualidade. PoMo é uma contração do termo pós-moderno e a ideia era dar voz às pessoas que eu conhecia, e outras que eu tinha ouvido falar, que se definiam como queer, sentindo os efeitos dessa fluidez, vivendo numa comunidade binária onde você ou é macho ou fêmea, gay ou hétero. São pessoas que não se sentem completamente homem ou completamente mulher, pessoas sem um lugar onde se sentirem respeitados, onde pudessem ser elas mesmas. Acho que esse é o coração da ideia do gender queer”.

Afetividade à brasileira

“Não fui a nenhum bar ou festa, então não tenho essa perspectiva da sexualidade e dos corpos em ambientes como esse. Mas o que eu senti foi uma abertura imediata para a afetividade, e também uma abertura para contar histórias pessoais. Algumas pessoas nos Estados Unidos não teriam tanto essa abertura, assim, de pronto. Muitas iriam primeiro tentar entender sua relação com o outro antes de dizer algo pessoal. Eu posso dizer que percebi um senso de que estamos todos juntos no processo dessa conferência – seja aqui seja no hostel, entre as pessoas que se hospedaram”.






DANIELA SEA

As muitas faces de Daniela Sea

Ativista LGBTQI, cineasta e atxr, Daniela Sea atua no cinema, na performance e na música. Aos 16 anos, saiu de casa em busca de maneiras diferentes, e próprias, de estar no mundo – jornada que levou, por exemplo, à experiência de viver como um homem durante seis meses na Índia. A fama veio por papéis como o do homem transexual Moira/Max Sweeney, no seriado de TV The L Word, do canal Showtime, e também pela participação no filme Shortbus (2006), do diretor John Cameron Mitchell (também criador de Hedwig – Rock, Amor e Traição, de 2001). Em 2011, retomou a parceria com Mitchell no curta-metragem Lady Dior, produzido para a grife francesa Christian Dior. Nenhuma dessas experiências na TV ou no cinema, no entanto, lhe conferiram nenhum estrelismo à personalidade. Figura acessível, acompanhou diversas mesas e rodas de conversa durante todos os dias da 1ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil. Sempre com um sorriso no rosto e um violão na mão. A seguir, trechos das falas de Daniela nos três momentos oficiais em que participou do evento: nas mesas “Conexão São Paulo – Bay Area” e “Pra Lá do Binarismo”, e na sessão de fotos e autógrafos “Dialogando com Daniela Sea”.

Alienígena

“Eu sempre me senti alienígena na maior parte do tempo – e continuo a me sentir assim, de jeitos diferentes. De certa forma, minha vida foi uma constante revelação. Quando eu penso em como eu me identifico, lembro que esse foi um tema sempre muito confuso para mim. Eu era uma criança que parecia um menino e, embora que não possa dizer que me sentisse como um menino, tampouco eu me sentia como as outras garotas ao meu redor. Eu tenho sorte de sempre ter tido muita liberdade para experimentar, desde criança – ao menos dentro da minha família. Por exemplo, eu nunca fui forçada a usar camiseta, como as meninas, o que me fazia sentir selvagem, de certa forma. E isso foi muito libertador. Eu sinto que a minha essência não se identifica com determinado gênero ou sexualidade.”

Fora da caixinha

“Eu sempre me refugiei, em diversos momentos, em comunidades diferentes, como entre as sapatonas, como ocorreu quando eu comecei a me descobrir. Sempre fui queer, sempre rompi limites. Sempre que tentavam me colocar numa caixinha, eu respondia quebrando os padrões. Pelo fato de me identificar muito com algumas etnias dos nativos norte-americanos – nas quais é possível, por exemplo, que você se vista de acordo com o gênero com o qual você se identifica –, eu costumo dizer que tenho dois espíritos, o que é uma forma também de dizer que eu aceito o binarismo. O que não me impede de muitas vezes já ter me identificado como trans, mas no sentido de um espectro de possibilidades dentro do qual você pode se mover. Eu nunca abri mão de ser uma pessoa livre para me expressar de formas diferentes dependendo do que eu sentia em determinado dia ou momento. Todas as vezes que eu tentei me encaixar numa categoria ou em outra, eu me senti oprimida. Era como se eu tivesse apagando partes de mim.”

Resistência e compaixão

“Quando eu penso sobre gênero, eu penso no amor, na possibilidade de liberdade, penso na vida como uma constante experiência, e quero estar ao redor de pessoas que pensam do mesmo jeito. Minha maior ambição é estar vive e saber que eu faço parte da Terra. O importante para mim é pegar essa força que eu recebo da minha comunidade e levá-la para quem não vive isso. O que eu sempre comprovo, convivendo com as pessoas, é que o que temos de mais precioso é a doçura, é sermos sempre agradecidos e fortes. Resistir e nos proteger, mas também ter compaixão e buscar entender porque tantas pessoas se sentem presas. Todos nós nos sentimos presos em níveis diferentes. Eu sinto muita compaixão pelos cristãos, pelos evangélicos, porque deve ser um jeito muito difícil de viver, carregar todo esse ódio. Eu tenho certeza que eles não são felizes.”


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